O Ministério da Justiça divulgava em 2015 um crescimento de 500% do número de presidiárias nos últimos 15 anos. A pesquisa levou em consideração dados de 1.424 unidades prisionais em todo o sistema penitenciário estadual e federal. Mas o que o estudo não revela são as histórias que estão por trás dessas vidas. Sofrimento, decepção e solidão marcam por muito tempo a trajetória de ressocialização. E isso quando este processo se torna possível.

Felizmente, para Luzinete, a personagem de nossa história, as portas se abriram ao final de um período de cinco anos (resultado de uma apelação para redução de pena de 11 anos). Este tempo, segundo ela, foi importante porque ali, em meio às dificuldades e abusos do sistema carcerário, foi lapidada pelo evangelho que conheceu muito anos antes de sua entrada na prisão.

Luzinete frequentava igreja evangélica e cantava no ministério de louvor de sua igreja. Mas lembrava que não conhecia o Senhor verdadeiramente. Não havia dedicação pessoal. Apenas frequentava a igreja e fazia o que mais gostava: cantar. Anos depois, adulta e casada, até a rotina religiosa ficou em segundo plano.

No primeiro casamento tinha uma vida financeira estável. Era mãe de três filhos, mas o problema era que a relação conjugal não se sustentou. Já divorciada, conheceu o segundo marido, por quem nutria grande sentimento. Só que a união entre um pedreiro e uma costureira não lhes renderam tranquilidade financeira. O marido, sentindo-se incapaz de sustentar o lar, decidiu arriscar a vida no tráfico.

“Ele achava que precisávamos de mais. Foi quando ele arrumou um amigo que era traficante e começou a traficar. Quando descobri que ele estava fazendo isso, já haviam-se passado dois anos”.
Um desentendimento na vizinhança onde moravam gerou uma denúncia e a consequente investigação policial na residência onde Luzinete vivia. Drogas foram encontradas e ela e o marido foram presos em junho de 2001. Uma nova realidade se apresentava. Tornara-se presidiária. Entretanto, o verdadeiro cárcere estava em seu coração. Presa ao ódio pelo delator e ao sentimento de injustiça que por algum tempo a impediu de enxergar a obra que Deus desejava fazer em sua vida.

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Luzinete, à esquerda, ao lado de Marilena, capelã da CBC

“Fiquei revoltada com Deus. Questionava-o sobre o fato de estar comigo ou não por causa da sentença de prisão. Numa oração disse que, se ele não me desse uma prova do seu amor, que eu nunca mais me importaria com ele”. Neste dia, cansada de tanto chorar, adormeceu. Ao acordar, por instinto observou o espelho e ouviu uma voz a dizer: “Você é a prova viva do meu amor”.

Uma sentença de cinco anos e lições a aprender. A começar por seu relacionamento com Deus. Descobertas, conhecimento e muita paciência. “O meu pensamento era de sair da cadeia, mas, quando fui para o Talavera Bruce, o Senhor me confirmou que eu deveria limpar a casa, a minha vida.”, lembrou Luzinete. Foi aí que o foco mudou e o discernimento veio na medida de seu relacionamento pessoal com Deus, através do estudo das Escrituras.

O contato com a missionária Marilena Nascimento, capelã prisional da Convenção Batista Carioca, foi a ajuda enviada por Deus para o sustento emocional e crescimento espiritual de Luzinete no período do cárcere. “Se sou a mulher que sou hoje, conhecedora da Palavra, eu agradeço a ela. Ela foi a minha força. Pena que lá tem muita gente que não aproveita a oportunidade, mas eu a aproveitei a cada segundo”.

Muita coisa acontece no sistema prisional. Como presidiária, Luzinete viu muita coisa ruim, mas até esses momentos serviram de aprendizado. Sem entrar em detalhes, ela se restringiu a dizer que cada experiência foi traduzida em composições musicais. “Cheguei a quase 100 composições de louvores a Deus e usava esses momentos de adversidade ao meu favor. As coisas aconteciam e não me atingiam porque logo o Senhor colocava uma palavra de louvor na minha boca, por mais que me humilhassem”.

O tempo passou sem que percebesse e, no dia de sua liberdade, Luzinete entrou em contato com os missionários da CBC para que a ajudassem a reencontrar a família. Na ligação a voz saiu trêmula, muito ansiosa, mas feliz em dizer que aquele era o grande dia. A missionária Marilena foi a primeira encontrá-la, trazendo-a para a sede de Missões Rio (o departamento missionário da CBC). Aqui Luzinete recebeu todo o cuidado necessário para recomeçar.

O dia em que deixou a prisão não foi o início de uma nova história, porque esta começara há muitos anos, ainda em cárcere. Mas foi a continuidade de uma promessa recebida da parte de Deus. A liberdade que começou de dentro para fora e a ajudou a construir novas bases para sua vida.

Luzinete tem um sonho: quer gravar as composições que recebeu da parte do Senhor. Mas se tem uma lição que aprendeu com louvor foi a da paciência. Aprendeu a identificar e respeitar o tempo de Deus. “Penso muito no tempo de Deus e vivo minha vida assim. No momento de Deus”.