Um assunto delicado, mas de grande importância para a igreja é a questão da ideologia de gênero. Tratá-las do ponto de vista jurídico e bíblico é essencial não só para uma fé sadia, mas também para a construção de um pensamento social que se preocupa com a dignidade do ser humano, independentemente de sua opção sexual. Foi nessa perspectiva que o Departamento de Associações da Convenção Batista Carioca (DEPAS) realizou, no último sábado, um simpósio sobre o assunto. O evento, que aconteceu na Primeira Igreja Batista Evangélica da Penha, contou com a presença de cerca de 400 pessoas, em sua maioria líderes de igrejas filiadas à CBC.

O Simpósio sobre Ideologia de Gênero contou com a participação do advogado e pastor Marcelo Rosa e do teólogo e hebraísta Pr. Luiz Sayão. Foram duas horas de apresentação finalizadas com perguntas que foram enviadas aos palestrantes. Abaixo, transcrevemos trechos das palestras:

A visão jurídica – Marcelo Rosa
“Ideologia de gênero no Brasil fervilha no campo da política, mas naturalmente vai trazer reflexos importantes no segmento religioso… Nas raízes do feminismo é que a gente vai começar a pensar na ideia de ideologia de gênero. A partir da década de 70 as grandes universidades começaram a refletir sobre isso, especialmente com o feminismo.

(…)No Plano Nacional de Educação havia meta para a Educação Básica e para cursos de graduação e pós. Todos eles com o objetivo de serem alcançados nos próximos dez anos, onde de maneira bem clara, se colocaria a questão da ideologia de gênero. Originalmente, previa que se acrescentaria a questão do gênero. O PNE não incluiu, mas passou para a legislação dos estados e municípios a possibilidade de inclusão dessa ideologia.

(…) O direito brasileiro sempre girou em torno dos códigos. Essas leis sempre foram preponderantes, mas, desde o advento do novo código civil, isso mudou um pouco por causa da constitucionalização do direito. Então todo o direito passou a ser interpretado pelo prisma constitucional. Se temos a lei maior, todas as outras deveriam ser interpretadas a partir do que a Constituição estabelece. (…) É no princípio da dignidade humana que se assenta a ideologia de gênero. Traz à luz os direitos dos homossexuais, por exemplo. O princípio da dignidade é um direito constitucional e a gente costuma dizer que é um direito de aplicação imediata.

(…) Nessa construção ideológica, o ser humano não teria, a princípio, uma unidade a respeito do que é o seu próprio ser biológico, sexual e qual é a sua identidade sexual definitiva porque a gora tudo é transitório. [Por exemplo], o cidadão pode ser homem até os 50 anos e resolver que, depois disso, quer ser mulher. Mas a ideologia de gênero sustenta que o ser não nasce nem homem e nem mulher. Vai ser algo que poderá ser do gênero masculino, ou feminino, ou os dois misturados”.

A visão bíblica – Luiz Sayão
“Nos textos hebraicos originais temos a expressão que indica que Deus criou macho e fêmea. E no hebraico temos uma série de palavras diferentes para construir o que chamamos de uma antropologia bíblica. (…) Então o paradigma da construção hebraica, e que vai formar a história da civilização ocidental, é que existe essa referência para homem e mulher. Nós vamos ter, na realidade, a construção da família que se apresenta e se concretiza na ideia de marido, mulher e seus filhos.

(…) Na bíblia existem muitos textos que tocam diretamente no assunto da homossexualidade e são textos que apresentam de modo geral a descrição da prática da homossexualidade. O famoso texto de gêneses capitulo 19, onde existem cidades que ultrapassaram os limites e recebem o juízo divino. Esse texto fica claro que Deus reprova esse tipo de conduta.

(…) Na construção da lei, da Torá, nos mandamentos que vão articular o pensamento judaico, nós vamos ter Lv 18.22, muito claro que o homem não deve se deitar com outro homem como se fosse mulher. De modo geral, o Antigo Testamento prossegue em sua discussão e quase não tem qualquer diferença em relação a isso.

(…) Existe uma hermenêutica destoante. É o fato de Davi ter uma amizade muito forte com Jônatas. Algumas pessoas chegaram à conclusão de que eles teriam tido uma relação homossexual. Pode até parecer uma referência a ser considerada, mas no texto não existe qualquer sinal dessa direção. Primeiro que a própria tradição hebraica não chegou a nenhuma conclusão nessa direção e deve ficar claro que os dois [Davi e Jônatas] têm as suas famílias e toda a discussão do texto passa , inclusive, por uma série de avaliações sociopolíticas que não deixam transparecer qualquer discussão que envolva de fato a questão da sexualidade.

(…) O Novo Testamento também apresenta a discussão clara acerca disso. Romanos vai fazer uma espécie de crítica onde homens e mulheres deixaram sua relação natural e apresenta esse comportamento como uma descrição de outras características reprováveis na perspectiva dos evangelhos e que eles são uma marca de como a humanidade precisava da graça de Deus.

(…) A gente deve entender que, historicamente, muitos cristãos tiveram uma reação inadequada com os parâmetros do NT. Toda pessoa deve ser amada profundamente sendo ela homossexual ou não. Porque as pessoas, de fato, têm dignidade e essa dignidade surge com relação à semelhança de Deus. E a regeneração da pessoa passa pela assimilação nítida daquilo que Deus diz sem que a gente modifique a verdade do evangelho para fazer qualquer tipo de jogo político ou social. Mas o evangelho vai mostrar o amor incondicional de Deus pela pessoa de tal forma que essa pessoa, sendo atingida por essa graça, abre seu coração e a graça de Deus começa a atuar em sua vida”.

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